Havana, Cuba – Sonho ou Pesadelo? (Parte III)

Gran Teatro, o mais importante do país. Fotos: Marco André Briones

Esta é a terceira parte de uma matéria escrita em quatro (semanalmente). Acompanhe a matéria completa lendo a primeira e a segunda parte.

A programação do 5º dia foi iniciada com a visita ao Gran Teatro, o mais importante do país, e que já foi palco das pouquíssimas apresentações de estrelas da música internacionais que já se apresentaram em Cuba, dentre os quais a banda Simply Red, que possui um lindo DVD gravado no local, intitulado simplesmente “Cuba”. O teatro realmente é belíssimo e bem cuidado. É um dos poucos prédios públicos que apresenta condições de visitação adequadas ao turismo de padrão internacional.

Em seguida fui ao Museu Nacional de Belas Artes, que basicamente possui obras contra os EUA, União Europeia, o capitalismo, entre outros “inimigos”. Muita ideologia e pouca arte disponível.

A Casa de la Obra Pia, atração seguinte, é uma das poucas residências da época do período espanhol que se encontra restaurada, preservada e pintada. Não é possível visitá-la por dentro, mas o pátio interior é muito bonito.

Catedral de Havana

As próximas paradas foram o Museu de Arte Colonial e a Catedral de Havana, ambos situados na mesma praça. O museu fica dentro de um belo casarão antigo, mas sua coleção não possui grandes atrativos. Já a catedral é muito interessante e imponente, sendo a maior existente no país. Foi um pouco estranho ver um templo católico tão grande em um país comunista, cuja ideologia nega a existência de Deus. No entanto, o povo cubano parece divergir bastante da ideologia dos dirigentes do país, pois as igrejas são bastante frequentadas pela população. Apesar de tudo, ainda há uma forte presença do catolicismo na sociedade cubana.

Próxima parada: Plaza Vieja, a “Praça Velha”, a qual se encontra muito bem restaurada e pintada. Eu até presenciei um ensaio fotográfico com uma linda modelo que, provavelmente, estava sendo fotografada para alguma revista de moda internacional.

Um dos maiores sinais da opressão que o povo cubano sofre de seu governo ditatorial foi a existência dos CDR (Comitês de Defesa da Revolução), existentes em todas as partes da cidade e do país. Basicamente, se trata de centros nos quais há cidadãos que, em nome do governo, controlam os demais integrantes do CDR. Denunciam seus vizinhos, parentes e amigos que exerçam qualquer atividade ou tenham opiniões divergentes das oficiais provenientes do governo. Desta forma, se você fizer críticas ao governo, escrever algo, participar de algum protesto ou apenas criticar, pode ter certeza de que um dos seus vizinhos lhe entregará ao governo. Outra instituição que possui papel semelhante é a UJC (União dos Jovens Comunistas), cujo lema é “Estudo, Trabalho e Fuzil (sim, você leu corretamente!)” e que exerce essencialmente o mesmo papel dos CDR, só que atua majoritariamente em meio aos jovens do país. Imagine só quantos cidadãos já desapareceram nas prisões cubanas, apenas por se oporem à opressão a que são submetidos diariamente há décadas. Essa é apenas uma das verdadeiras facetas sombrias de uma ditadura que, infelizmente, no Brasil muitas pessoas ainda defendem e se negam a acreditar que existe.

Uma surpresa que tive ao caminhar pelas ruas do centro foi encontrar uma loja da rede brasileira “Via Uno”. Fiquei pensando quem é que deveria comprar tais calçados, já que a população cubana não tem recursos nem para comprar os artigos produzidos localmente, quanto mais os importados. Talvez sejam os turistas estrangeiros que movimentem tal comércio.

Fiz um bom almoço no restaurante El Templete, no qual comi um bom filé com batatas e pimentas negras.

Castillo de San Salvador de la Punta

A parada seguinte foi o Castillo de San Salvador de la Punta, um importante forte histórico de pedra, repleto de canhões antigos, o qual era usado para proteger a cidade de Havana de ataques dos piratas. O calor que enfrentei foi inacreditável. Pensei que fosse ter uma insolação a qualquer momento, mesmo estando de boné, óculos escuros e coberto por uma espessa camada de protetor solar.

Outra coisa que me chamou a atenção é a grande quantidade de pessoas que ficam pedindo carona aos motoristas que circulam em automóveis dos anos 50 ou 60, os únicos ainda disponíveis no país. Isso ocorre pelo fato de os transportes públicos no país serem péssimos e extremamente precários. O intervalo entre cada ônibus que passa é enorme e o estado em que se encontram é lamentável. Muitos dos ônibus ainda circulantes no país são aqueles de cor amarela, que aparecem nos filmes americanos dos anos 50, que eram usados para levar as crianças para a escola. Realmente lamentável.

Fiz um passeio por uma antiga avenida muito arborizada, chamada Paseo del Prado que, nos tempos pré-revolucionários, era um local onde residiam as famílias mais ricas de Havana. Hoje em dia, parece uma sequência de espeluncas, prestes a ruir a qualquer instante.

Para finalizar o dia, tive uma experiência peculiar: fui à um dos poucos restaurantes particulares do país, já que tudo em Cuba pertence ao Estado, e seus cidadãos não têm direito algum a qualquer propriedade privada. No entanto, nos últimos anos, o governo cubano vem cedendo “permissões” para que alguns cidadãos criem restaurantes em suas residências, chamados “Paladares”. Eu fui ao mais famoso, chamado “La Cocina de Lillian”. A casa é isolada em um bairro muito distante e escuro. Não sei como consegui chegar até lá e encontrar tal paladar. Bebi um saboroso Mojito, comi um “Filé com Congris”, que é basicamente uma carne com arroz e feijão misturados. Sem dúvida, uma experiência única.

DIA 6

Uma coisa que me entristeceu em Cuba foi ver o abandono total em que se encontra o país, seu povo e suas construções. Há outdoors em toda parte. No entanto, não são de anúncios de produtos ou serviços. Apenas propaganda governamental, pura lavagem cerebral ideológica da pior espécie. Para quem é estrangeiro, além de ser revoltante, é patético. Um dos outdoors que eu vi que se encaixou perfeitamente na categoria “patética” foi um que mostrava o perfil de 3 líderes da Revolução Socialista com os seguintes dizeres: “Protagonistas de nosso tempo”. O detalhe é que os 3 líderes morreram há décadas. Como poderiam então ser protagonistas de nosso tempo? Isso é uma pequena amostra do que a ditadura cubana é capaz.

Além disso, é um perigo se andar pelas ruas, pois a quantidade de buracos nas calçadas e nas ruas é avassaladora. É muito comum as pessoas caírem dentro dos buracos profundos. O perigo é especialmente acentuado à noite, pois praticamente não há iluminação pública e os buracos se tornam ainda mais difíceis de serem notados. Um perigo à nossa espreita a cada rua.

As casas nas ruas, a maioria em escombros ou a ponto de poderem cair a qualquer momento, são outro perigo constante. É muito comum pedaços dos prédios e casas caírem enquanto os pedestres circulam pelas ruas. Esse é mais um dos motivos pelo qual há tantos atropelamentos no país. Como as calçadas são absolutamente esburacadas e os prédios estão prestes a desmoronar, as pessoas andam pelo meio da rua, pois acham que estão mais seguras. No entanto, se esquecem que também há muitos buracos nas ruas que, junto com a falta de iluminação, torna os pedestres praticamente invisíveis à noite para os motoristas de veículos que circulam por Havana e pelo restante do país.

Para aqueles que acharem que eu estou exagerando, ou sendo duro demais com Cuba, eu recomendo que assistam o documentário “Cuba e o Cameraman”, disponível na Netflix. Esse documentário foi filmado por um americano apaixonado por Cuba e que visitou o país durante 5 décadas. Assistam o documentário e tirem suas próprias conclusões se eu exagerei em meu relato de viagem.

Voltando ao roteiro turístico, este foi o dia mais quente que passei em Cuba: 42 graus Celsius. Um calor inacreditável, com um sol que, literalmente, queimava a pele, por mais protetor solar que eu aplicasse, nada era suficiente para suportar a ardência do sol.

Castillo del Morro

Iniciei o passeio pelo Castillo del Morro, um belíssimo castelo construído em 1589 exatamente na entrada da baía de Havana, com a finalidade de defender a cidade de ataques inimigos e dos piratas. O local é muito amplo, permitindo longas caminhadas para conhecer as várias partes do castelo, suas torres e a maravilhosa vista do mar azul caribenho.

O castelo foi usado na guerra entre a Inglaterra e Espanha, em 1762, quando as tropas britânicas desembarcaram em Cojimar, próximo à Havana, e foram a pé até o castelo, o qual conseguiram dominar. Quando os ingleses devolveram a ilha à Espanha em 1763, foi construída a Fortaleza La Cabaña, bem ao lado do castelo, para evitar que tal situação se repetisse.

O poeta cubano Reinaldo Arenas ficou preso durante um longo período dentro do castelo simplesmente por fazer críticas ao governo castrista, denotando o caráter altamente opressor da ditadura cubana.

Até hoje, pontualmente às 21 horas, há uma salva de tiros de canhão no castelo. Tal tradição vem desde os tempos coloniais, pois era esse o horário em que era sinalizado que os portões da cidade se fechavam.

Fortaleza La Cabaña

A Fortaleza San Carlos de La Cabaña fica ao lado do Castillo del Morro. É um lugar muito bonito, bem preservado e interessante. A vista do mar é linda. Nele, podemos ver alguns mísseis soviéticos que estão ali desde a grande crise dos mísseis ocorrida em 1962, quando quase ocorreu uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética justamente por esta ter instalado mísseis de grande poder destrutivo em Cuba. Os maiores e mais perigosos mísseis foram retirados pelos soviéticos.

Dentro da fortaleza, há dois outros locais muito importantes, mas nem por isso menos assustadores. O primeiro deles é o gabinete de trabalho de Che Guevara, conhecido como “Comandancia del Che”. Foi desse local de onde o sanguinário líder argentino ordenou o fuzilamento de 1892 pessoas, entre eles escritores, poetas e cineastas independentes de Cuba, sem qualquer tipo de julgamento ou auxílio de advogados, pois ele afirmava para quem quisesse ouvir que ele não precisava de provas para executar um homem, apenas saber que é necessário executá-lo. Simplesmente pelo fato de considera-los inimigos. No entanto, tal número se torna pequeno perto das mais de 14.000 execuções por fuzilamento que ocorreram em Cuba apenas até o final da década de 1960. Imaginem quantos mais foram fuzilados desde então? A visita a tal gabinete é realmente muito perturbadora.

Eu já sabia que o terrível e famoso “El Paredón”, onde milhares de pessoas foram fuziladas por ordem de Che Guevara e Fidel Castro ficava dentro da fortaleza de La Cabaña. No entanto, não há qualquer informação sobre a localização de tal ponto na documentação turística local. Além disso, se perguntamos a qualquer guia ou funcionário público sobre tal “Paredón”, eles dizem que isso não existe ou que não sabem onde fica. Como a fortaleza estava bastante vazia quando eu estava por lá, e não havia câmeras de vídeo ou praticamente nenhum guarda ou vigia, eu decidi procurar por conta própria até encontrar o maldito “Paredón”. Depois de algum tempo, consegui achá-lo, descendo uma escadaria longa de pedra, até a base da fortaleza. Me deparei com um antigo portão de madeira entreaberto. Eu o empurrei e me encontrei cara a cara com o “Paredón”. Fiquei horrorizado e todo arrepiado ao vê-lo. Lá estava o local onde milhares de pessoas inocentes perderam suas vidas. As marcas de balas de fuzil estão em toda parte, lembranças de tanto sofrimento que ocorreu ali. Uma visita das mais tristes que já fiz em minha vida, da qual eu nunca me esquecerei.

Para tentar me recuperar e animar, depois de ver tanta tristeza e sofrimento ainda presentes na fortaleza La Cabaña, fui a Cojimar, próxima a Havana, onde há um pequeno bar chamado “La Terraza”, que fica literalmente em cima do mar. É um local muito tradicional, que era frequentado por Ernest Hemingway, que adorava pescar da janela do bar, pois os peixes já se encontravam no mar logo embaixo do bar. Bebi uma cerveja local, chamada Cristal, e assisti um show de música cubana ao vivo que foi muito bonito e alegre, no qual fui convidado a tocar um pouco de percussão, obviamente em troca de alguns dólares.

Almocei no restaurante El Mercure, onde comi carne com fritas, já que é altamente arriscado de comer qualquer tipo de fruta ou salada em Cuba, tendo em vista que são lavados com a água local, sem qualquer tipo de tratamento. Há incontáveis casos de turistas, muitos deles brasileiros, que se aventuram a beber bebidas com gelo, comer saladas ou frutas e depois passam por dias de diarreias terríveis. Em Cuba só se pode comer pratos assados, fritos, cozidos ou que tenham sido levados ao forno ou fogão. Comer algo cru ou lavado com a água local deve ser evitado a qualquer custo.

Depois do almoço, prossegui no meu passeio para a Finca La Vigia, antiga residência de Hemingway em Havana. Trata-se de um lugar lindo, afastado do burburinho da cidade, no qual o grande escritor tinha sua lancha guardada, seu gabinete de estudos e trabalho, aposentos e até mesmo um pequeno cemitério de animais. Tudo muito bem cuidado e preservado, pois o grande autor era considerado um amigo de Fidel e de Cuba.

Após a visita a Finca La Vigia, fui conhecer a famosa Sorveteria Coppelia, que já protagonizou várias cenas em filmes cubanos, por ser considerado um lugar lendário no país. Ao chegar lá pude entender como “funciona” a sorveteria. Há duas filas separadas, uma para os estrangeiros, que pagam um preço 100 vezes mais caro pelo sorvete, e outra para os cubanos, que pagam míseros centavos pelo mesmo sorvete. A questão mais surpreendente é que a fila para os cubanos conseguirem comprar sorvete dura mais de 5 horas de espera ao sol escaldante de mais de 40 graus! Nunca vi nada igual. Parecia que todo o povo cubano estava na fila. Eu peguei a fila dos estrangeiros, na qual fui atendido imediatamente, paguei em moeda conversível, e saí para o pátio para tomar o pior sorvete de toda a minha vida. É inacreditável que o sofrido povo cubano passe 5 horas de seu dia na fila para conseguir tomar um sorvete tão ruim, pois é o único que eles podem pagar e ter acesso. Realmente deprimente.

Finalizamos o dia jantando no Hotel Meliá Habana, onde comemos carne, arroz e fritas, nada de saladas, frutas ou gelo, por favor!

Havana, Cuba – Sonho ou Pesadelo (parte I) – (parte2)

Leia outras matérias de Marco André Briones