Vila Operária Maria Zélia, patrimônio arquitetônico

Vila Operária Maria Zélia
Fachada da Escola de Meninos na Vila Operária Maria Zélia. Fotos Marco André Briones

Se pudéssemos escolher um local que representasse, em uma escala mínima, toda a riqueza histórica e cultural de nosso país, além da beleza de nosso patrimônio arquitetônico, mas que, por outro lado, evidenciasse o total descaso e abandono através dos quais tais elementos são vistos pelos nossos governos e sociedade, esse lugar poderia ser facilmente exemplificado pela Vila Operária Maria Zélia.

Para podermos entender a importância e o valor histórico do local é preciso voltarmos no tempo. Precisamente ao ano de 1912.

No início do século XX, o continente europeu presenciou o surgimento de inúmeras vilas operárias, criadas com o intuito de servir de residência para os operários que trabalhavam nas fábricas em países como Inglaterra, França, Bélgica e outros. Tais vilas eram quase que mini-cidades, com vários tipos de serviços disponíveis para os operários em que nelas residissem. Além disso, apresentavam condições de saneamento urbano muito superiores à maioria das residências comuns da época.

Em São Paulo, as vilas operárias acabariam se instalando em bairros como Mooca, Ipiranga, Bom Retiro e Brás, próximas às linhas ferroviárias e às indústrias de famílias como Matarazzo, Penteado e Crespi. A maior parte destas indústrias permaneceu em atividade até a década de 1980. No entanto, a primeira vila operária do Brasil foi criada no Belenzinho.

A construção

Vila Operária Maria Zélia
Casa em estilo arquitetônico original

Foi justamente tendo todo esse cenário em mente que o médico e empresário carioca Jorge Street, que havia herdado as ações da Tecelagem de Juta São João em 1896 e fundado a Companhia Nacional de Tecidos de Juta em 1904, adquiriu o terreno para a construção de uma vila operária, ao lado da filial de sua fábrica no Belenzinho.

A fábrica de Jorge Street produzia sacarias para produtos agrícolas e empregava aproximadamente 2100 operários. O empresário tinha uma relação muito próxima com seus funcionários, pois acreditava muito no conceito de “justiça social”. Tinha por hábito visitar os operários em suas casas e estabelecer laços fortes com eles. Durante tais visitas, se deu conta das condições precárias em que a maior parte deles vivia. Tal constatação o levou a buscar uma solução para tal problema

Inspirado no modelo europeu, decidiu contratar um arquiteto de origem francesa, chamado Paul Pedraurrieux, para construir uma vila operária para os funcionários de sua fábrica e seus familiares. Street se envolveu pessoalmente com a execução de todos os projetos do terreno adquirido por ele.

O projeto de Street previa a construção de 220 casas familiares, além de um dormitório para solteiros, uma escola para meninos e outra para meninas, uma creche, dois armazéns, um ambulatório, consultórios médicos e odontológicos, uma igreja, um salão de eventos, um açougue, um campo de futebol, um coreto, uma praça, uma farmácia, além de uma fábrica de sapatos. Além de possuir ótimas condições estruturais, os moradores da Vila também dispunham de serviços incomuns na época, tais como a cobrança de aluguel descontado diretamente dos salários, uma taxa de cobrança pelo uso de água e o acesso aos serviços do armazém, que vendia produtos com subsídios de 50%.

Vila Operária Maria Zélia
Igreja São José

Educação como prioridade

O critério utilizado para a separação de famílias entre os diversos tipos de habitação era o número de membros. Quanto maior fosse a família, maior a moradia. Os administradores da empresa também tinham direito à residências maiores. Havia casas de quatro tamanhos, variando entre 75 a 110 m2, além de seis tipos diferentes. Todas elas dispunham de água e esgoto encanados, o que podia ser considerado um luxo para a época, na qual grande parte dos trabalhadores morava em cortiços.

Vila Operária Maria Zélia
Antigo Colégio de Meninos

Uma das grandes preocupações de Jorge Street era com as crianças. Por tal motivo é que ele estabeleceu que a educação na Vila Maria Zélia seria uma prioridade e seria gratuita para os moradores. Para atender à demanda dos filhos dos funcionários foram construídas três escolas: uma para meninos, outra para meninas e uma terceira que servia de creche e jardim de infância. Tais escolas eram consideradas como as melhores da região e também eram abertas aos moradores das ruas vizinhas da vila.

Vila Operária Maria Zélia
Antigo Colégio Manuel

Dentro da creche as crianças recebiam roupas, alimentos, tomavam banho e recebiam o leite para beberem à noite em casa. Até os sete anos de idade, os tratamentos médicos e odontológicos eram gratuitos. Ao atingirem tal idade, elas passavam a estudar na escola e tinham aula com professores da rede oficial de ensino. Havia dois períodos de aulas: diurno e noturno. O período noturno era destinado às crianças que trabalhavam na fábrica de Street.

As crianças recebiam também medicamentos gratuitos, enquanto os adultos tinham o valor dos mesmos deduzidos de seus salários. Também eram promovidas festas, bailes, concertos musicais e jogos de futebol.

Inauguração

A vila operária começou a ser construída em 1912 e foi inaugurada em 1917. O arquiteto Paul Pedraurrieux conseguiu criar uma pequena vila europeia dentro do Belenzinho. A nova vila recebeu o nome de Maria Zélia em homenagem à filha de Jorge Street, que havia morrido de tuberculose dois anos antes da inauguração do empreendimento.

Vila Operária Maria Zélia
Antigo Colégio de Meninas

A inauguração da Vila Operária Maria Zélia foi um grande acontecimento na cidade de São Paulo, contando com a presença de políticos, industriais e do então Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, que foi o responsável pela missa inaugural. Na ocasião ele visitou e abençoou todas as partes da Vila, tendo sido seguido por uma grande multidão.

Embora Jorge Street tenha obtido sucesso com sua fábrica, ele acabou acumulando dívidas e teve que vender o complexo em 1924, que foi adquirido pela família Scarpa que, por sua vez, o revendeu à família Guinle. Como os Guinle também tinham muitas dívidas com o governo federal, a fábrica e a vila acabaram sendo confiscadas pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões do Industriários.

Um outro período marcante da Vila Operária Maria Zélia se iniciou em 1935 e durou até 1937, quando Getúlio Vargas a transformou em presídio político durante o período do Estado Novo. Tal uso da vila se deu após a chamada “Intentona Comunista”. Chegaram a ser detidos 700 presos no local, a maior parte deles ligados ao Partido Comunista Brasileiro e também intelectuais que se opunham ao governo ditatorial de Vargas. Entre eles, foram detidos personagens ilustres, como o historiador Caio Prado Jr. Como grande parte dos presos políticos era composta de intelectuais, historiadores e acadêmicos, a vila passou a ser chamada de “Universidade Maria Zélia”.

Mudanças e tombamento

Em 1939, dois anos após o presídio ter sido desativado, a fábrica foi reaberta pela Goodyear, que demoliu a fábrica de tecidos, a creche, o jardim de infância e 18 casas para que a fábrica pudesse ser ampliada. Os moradores da vila passaram a pagar aluguéis pelo uso dos imóveis e, em 1968, tiveram a oportunidade de comprá-los através do sistema do Banco Nacional de Habitação. A inauguração da fábrica Goodyear acabou de vez com o vínculo entre a vila e a fábrica, pois foi criado um muro que, até os dias de hoje, separa as duas partes.

Vila Operária Maria Zélia
Casa onde foi filmado o filme de Mazzaroppi

A Vila Operária Maria Zélia já teve vários moradores ilustres. Entre eles, aquele que tem seu nome mais ligado ao local é o comediante Mazzaropi, que registrou seu filme “O Corintiano”, de 1966, em uma casa ainda existente até hoje na Vila. Outros moradores famosos foram a jornalista Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, além de Octávio Frias de Oliveira, fundador da Folha de São Paulo.

Todo o conjunto arquitetônico foi tombado em 1992. Das 220 casas originais, ainda restam 171. No entanto, a maior parte delas já teve suas fachadas e outras características originais alteradas por obras irregulares ou não autorizadas, embora ainda remetam à arquitetura original.

Os prédios funcionais (escolas e armazéns), pertencem até hoje ao INSS, que tenta vendê-los a órgãos públicos por alegar não ter recursos para a restauração dos mesmos, se encontrando em total estado de abandono, completamente largados, sem qualquer manutenção ou cuidado. Existe até mesmo o risco destes imóveis desmoronarem, devido ao precário estado em que se encontram. A Igreja São José está em condições um pouco melhores, pois é administrada pela Paróquia de São José do Belém, que conseguiu fazer uma reforma no telhado da igreja e evitar que o mesmo desabasse.

Nos dias de hoje

A escola das meninas já foi cenário de vários ensaios fotográficos, campanhas publicitárias e clipes musicais, pois como muitas árvores cresceram dentro do prédio, tal ocorrência inusitada acabou criando um cenário único e muito original, bastante apreciado por artistas e publicitários.

Vila Operária Maria Zélia
Antiga Farmácia – Hoje sede do Grupo XIX de Teatro

Dois dos imóveis pertencentes ao INSS são usados atualmente pela Companhia Teatral Grupo XIX, que apresenta suas peças no local e tem contribuído para atrair a atenção para preservação do patrimônio histórico e arquitetônico da Vila; e também pela Associação Cultural Maria Zélia, que organizou um Centro de Memória da Vila e também é responsável pela organização de festas juninas e do aniversário da vila, com o objetivo de angariar fundos para as restaurações necessárias.

Em todas as vezes que visitei a Vila Operária Maria Zélia, fiquei impressionado pela originalidade do local e por sua beleza, ainda que esteja tão mal preservado. Seria muito importante que a sociedade e os governos municipais e estaduais se unissem para restaurar e valorizar um local tão importante para a história de São Paulo e do Brasil.

Se tiver a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, não deixe de fazê-lo, pois terá a chance de presenciar uma parte pouco conhecida de nossa história que, se não for urgentemente restaurada, poderá desaparecer para sempre.

Para maiores informações, consulte o site oficial da Vila Operária Maria Zélia: https://www.vilamariazelia.com.br/

Marco André Briones – marcoandrebriones@cidadeecultura.com.br

Todas as fotos da matéria foram tiradas por Marco André Briones, em julho de 2017.

Bibliografia:

  • Vila Maria Zélia – Visões de uma vila operária em São Paulo, de Vanderlice de Souza Morangueira – USP (2006)
  • Wikipédia
  • Aos 100 anos, o tempo parou na Vila Maria Zélia, de Priscila Mengue – O Estado de São Paulo – 12 de maio de 2017.
  • Vila Maria Zélia, nostalgia e descaso na memória da cidade, de Marina Izidoro – Sampa Inesgotável
  • Vila Maria Zélia – São Paulo Antiga – saopauloantiga.com.br

Para saber mais dicas de turismo cultural e histórico no Brasil e no mundo, acompanhe a coluna de Marco André Briones no portal Cidade&Cultura

Vila Operária Maria Zélia
Observador solitário na Vila Operária Maria Zélia