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quarta-feira 20 março 2019
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Silveiras, capital do tropeirismo

Silveiras-Foto Marco Andre Briones

Capela de São Benedito em Silveiras. Fotos Marco André Briones

Quem visita a pequena e pitoresca cidade de Silveiras nos dias atuais mal pode imaginar quantas histórias podem ser contadas sobre o que se passou por ali. São justamente algumas dessas histórias que eu gostaria de compartilhar com meus leitores, pois tenho certeza que muitos ficarão surpresos ao conhecerem um pouco sobre esta cidade pouco lembrada pelos turistas.

Desde que foram descobertas as primeiras minas de ouro em Mato Grosso e Minas Gerais, no início do século XVIII, havia, por parte das autoridades portuguesas, uma grande preocupação em se criar uma estrada que ligasse São Paulo ao Rio de Janeiro por terra, tendo em vista que o trajeto pelo litoral era muito perigoso, pois o mesmo era frequentemente atacado por corsários, que roubavam as preciosas cargas de ouro e pedras preciosas transportadas pelas embarcações lusitanas, trazendo enorme prejuízo à Coroa Portuguesa.

Criação de trilhas

Tendo como ponto de partida a necessidade de se efetuar o transporte de tais cargas de maneira segura, o governo português passou e estimular que fossem criadas trilhas pelo interior do território da colônia brasileira, através da distribuição de terras a serem povoadas e cultivadas, através do estabelecimento de ranchos ao longo do caminho, a fim de servir de pouso para os tropeiros que faziam o trajeto ligando as “Minas Geraes” até o porto de Paraty, no futuro estado do Rio de Janeiro. Foi surgindo também ao longo de tal trilha um pequeno comércio para atender os tropeiros, que foram os pioneiros no transporte de vários tipos de produtos pelo território colonial.

Tal estrada foi sendo aberta aos poucos, e foi denominada de “Caminho Novo” ou “Estrada Real”, por onde seria escoado o ouro que vinha de Minas Gerais para ser fundido no Rio de Janeiro. Não devemos, no entanto, nos esquecer que a finalidade principal para a criação desta estrada foi a de garantir os cofres de sua Majestade.

Uma das famílias que se estabeleceu ao longo de tal trilha foi a dos Silveiras, que foram seus primeiros habitantes e ergueram o Rancho do Tropeiro que, futuramente, acabou dando origem à cidade que surgiu no local, e que acabou herdando o nome de tal família de pioneiros.

Há fortes indícios de que a futura cidade de Silveiras tenha sido planejada, pois as três praças principais da cidade têm as mesmas medidas, formando retângulos exatamente iguais. As quatro ruas transversais são também do mesmo comprimento e foram traçadas geometricamente, dando a impressão que foram traçadas antes em um mapa. Apenas as duas ruas mais longas da cidade são tortas, desiguais e desalinhadas, mas todas as ruas centrais são perfeitamente alinhadas.

Expansão

A pequena cidade foi se expandindo e sua primeira visita marcante foi a do futuro Imperador D. Pedro I, que estava a caminho de São Paulo, em sua viagem histórica que acabou culminando com o “Grito do Ipiranga” e a Independência do Brasil. O então Príncipe almoçou em Silveiras, jantou em Cachoeira Paulista e dormiu em Lorena antes de chegar à cidade de São Paulo.

Em 1842, ocorreram as Revoltas Liberais, que foram movimentos que agitaram o país durante o período imperial de D. Pedro II. Tais movimentos foram promovidos, organizados e incitados pelo Partido Liberal, que contestava a ascensão do Partido Conservador ao poder. Tais fatores deram origem a rebeliões em São Paulo e Minas Gerais.

Silveiras, em particular, sofreu muito com tais revoltas, pois sua população levantou-se contra o Imperador D. Pedro II que, por sua vez, enviou o Barão de Caxias, futuro Duque de Caxias, para reprimir tais movimentos.

Como Silveiras foi a única cidade da província de São Paulo a oferecer resistência às tropas imperiais, teve de pagar um preço caro por tal afronta. Logo após uma batalha, a cidade foi derrotada por Caxias e ocupada pelas tropas imperiais. Silveiras se rendeu após o episódio conhecido como “Trincheiras”, quando 56 chefes de família silveirenses foram assassinados pelas tropas lideradas pelo Barão de Caxias. A cidade foi totalmente destruída na manhã de 12 de julho de 1842 e, no local do grande combate, existe hoje um monumento erguido à tragédia sofrida pela população local. Vestígios de tais trincheiras existem até hoje, para testemunhar os acontecimentos de 1842.

Reconstrução…

A Revolução Liberal de 1842 deixou marcas tão profundas em Silveiras que a reconstrução da cidade levou mais de 2 anos para ser concluída. Além disso, o município de Silveiras foi desligado da Província de São Paulo e foi anexado ao Rio de Janeiro, como castigo por ter tomado parte da Revolução de 1842. Caxias pensava que os silveirenses deveriam pagar caro pela audácia de terem se levantado em armas contra o Governo Central.

Um outro ilustre visitante que esteve em várias ocasiões na cidade foi Euclides da Cunha, pois este era engenheiro e lá realizou várias obras, entre elas a reforma da cadeia municipal e a canalização de um córrego local para o abastecimento de água da cidade.

… e decadência

A cidade entrou em decadência devido à vários fatores: primeiramente, com a abolição da escravatura e com o esgotamento das terras que eram usadas sem adubo durante o Ciclo do Café e com a posterior expansão dos cafezais para o oeste do Estado de São Paulo. A quebra da bolsa de valores de Nova York trouxe uma queda brutal no preço do café, acentuando o declínio dos fazendeiros silveirenses. Além disso, houve uma enorme frustração gerada quando foi feito o prolongamento da estrada de ferro Central do Brasil, de Cruzeiro até Bananal, que deveria ter passado por Silveiras, Areias e São José do Barreiro, mas, devido ao histórico revoltoso da cidade, esta acabou sendo preterida por outras cidades. Por fim, a industrialização das cidades vizinhas também relegou Silveiras à um segundo plano, deixando-a no ostracismo.

Por todos esses motivos é que Monteiro Lobato, em sua memorável obra “Cidades Mortas”, fez um relato do cenário desolador enfrentado por Silveiras e outras cidades da região, pois ele havia presenciado tal situação de perto, quando residiu em Areias, cidade vizinha à Silveiras.

Em 1932, Silveiras sofreu novamente com a eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932, pois foi novamente derrotada pelas tropas governamentais que, desta vez, queimaram todos os arquivos e documentos de cartório e históricos existentes na cidade, além de terem saqueado todas suas casas. Em tal ocasião, a cidade foi bombardeada, suas casas destruídas e seu povo foi intimado a deixar a cidade.

Tropeirismo

Silveiras-foto Marco Andre Briones

Sede da Fundação Nacional do Tropeiro

Silveiras precisou de muitos anos para conseguir se reerguer. Atualmente, ela é conhecida como “Capital do Tropeirismo”, devido à sua participação decisiva na época em que os tropeiros faziam a ligação entre Minas Gerais e Rio de Janeiro. Foram criados movimentos para preservar a memória e cultura tropeirista, sua culinária, vestimentas e tradições. Além disso, foi criado o movimento Tropeirista, por Ocílio Ferraz, que também foi proprietário de um restaurante conhecido na região, o Restaurante do Ocílio, além de ter presidido a Fundação Nacional do Tropeiro.

Nos dias de hoje a cidade recebe visitantes que a procuram por suas belezas naturais, pela cultura tropeirista e seu artesanato de madeira, especializado em lindas peças  reproduzindo pássaros locais. Este artesanato espalhou-se por todo o Brasil e é atualmente exportado para vários países do mundo.

Eu mesmo tive a oportunidade de visitar vários ateliês de artesãos talentosos, sendo que o que mais me agradou, devido à qualidade inquestionável de suas peças foi o “Entre no Paraíso Ateliê e Café”, situado na Rodovia dos Tropeiros km 218 (vejam as fotos no final da matéria).

Santuário da Santa Cabeça

Silveiras-foto Marco Andre BrionesSilveiras-foto Marco Andre BrionesPor fim, uma outra atração para os turistas que visitam Silveiras é o Santuário da Santa Cabeça, também localizado na Rodovia dos Tropeiros, um pouco antes da entrada da cidade.

O santuário teve sua origem por volta de 1829, quando dois homens que pescavam no rio Tietê recolheram em suas redes a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora. Eles deram tal achado para uma moradora local, que a guardava em casa tal peça e passou a receber vários visitantes a fim de fazerem pedidos à Nossa Senhora. Como o fluxo de visitantes cresceu exponencialmente, foram angariados fundos para a construção do santuário, que passou a receber peregrinos de todo o Brasil, que vêm rezar e agradecer os milagres que atribuem à imagem.

A imagem venerada com o nome de Santa Cabeça se trata de uma cabeça que está guardada dentro de uma redoma de vidro e cercada de uma moldura dourada, sustentada por dois anjos. No santuário também podemos visitar a sala dos milagres, com inúmeras cabeças de cera, que são objetos de promessas dos fiéis e romeiros, que invocam a Santa Cabeça para interceder em seus nomes por todas as enfermidades relacionadas à cabeça. Atualmente, dois milhões de pessoas visitam o santuário anualmente, tendo sido necessário até mesmo a criação de um estacionamento específico para ônibus de romeiros e peregrinos.

Não deixe de visitar

Silveiras integra o Circuito Religioso do Estado de São Paulo, assim como as cidades de Aparecida e Guaratinguetá.

Portanto, se você ficou curioso em conhecer pessoalmente todos os lugares que mencionei, não deixe de visitar Silveiras quando estiver de passagem pela região e aproveite para saborear a deliciosa cozinha tropeira e comprar lindos pássaros de madeira do artesanato local. Serão belas lembranças que lhe farão companhia por muito tempo.

Bibliografia usada: Silveiras: História e Tradição, de José de Miranda Alves

 

Para saber mais dicas de turismo cultural e histórico no Brasil e no mundo, acompanhe a coluna de Marco André Briones no portal Cidade&Cultura

 

Silveiras-foto Marco Andre Briones

Entre no Paraíso Ateliê e Café

Silveiras-foto Marco Andre Briones

Artesanato do Entre no Paraíso Ateliê e Café. Todas as fotos da matéria são de Marco André Briones

 




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