Mauá e Ribeirão Pires, surpreenda-se com a importância histórica dessas cidades

Capela Nossa Senhora do Pilar (vista lateral) – Ribeirão Pires/SP Fotos: Marco André Briones

MAUÁ E RIBEIRÃO PIRES

Tão próximas, mas, ainda sim, tão distantes. Talvez essa seja a melhor definição do relacionamento entre a capital paulista e as cidades de Mauá e Ribeirão Pires. Localizados a apenas 27 e 36 km de distância respectivamente, tais municípios se situam geograficamente muito perto de São Paulo capital, mas parecem estar muito longe, pois há um considerável desconhecimento por parte dos paulistanos de ambas localidades vizinhas, cujas histórias estão intimamente ligadas à da capital. Poucos paulistanos já visitaram as duas cidades e conhecem um pouco da história e da importância de Mauá e Ribeirão Pires.

Já os moradores dessas cidades se deslocam à capital com frequência muito maior, pois grande parte de seus moradores trabalham ou possuem atividades comerciais na cidade de São Paulo, retornando a seus lares ao final do dia apenas para dormirem.

Há algum tempo tive a oportunidade de explorar Mauá e Ribeirão Pires. O que começou com uma simples visita ao Museu Barão de Mauá acabou se transformando em um passeio bem mais longo, durante o qual eu fui descobrindo lugares surpreendentes e muito interessantes, dos quais eu nunca havia lido ou ouvido falar a respeito.

Dessa forma, decidi redigir o presente artigo para estimular que outras pessoas também se animem a visitar e descobrir os atrativos turísticos e históricos dessas cidades da Grande São Paulo. Espero que minhas fotos e palavras despertem a curiosidade de alguém para fazer o percurso que eu fiz e possa descobrir lugares inusitados e belos, bastante próximos à São Paulo.

Museu Barão de Mauá – Mauá/SP

MAUÁ

Começaremos por Mauá, minha primeira parada. Uma das características mais marcantes da cidade é de não ser cortada por nenhum curso d’água proveniente de outro município. Devido à sua elevada altitude, todos os rios que cruzam seu território nascem na própria cidade, sendo o mais importante deles o Rio Tamanduateí, que nasce dentro do Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia.

Mauá, um nome de origem tupi, significa “terra ou cidade elevada”. Inicialmente, o nome “Mauá” fazia alusão à zona portuária do Rio de Janeiro, na qual Irineu Evangelista de Souza, o famoso “Barão de Mauá”, um dos maiores empreendedores de toda a história do Brasil, construiu muitos empreendimentos. Com o passar dos anos o povoado, que até então se chamava Pilar, foi beneficiado em 1926 com uma estação de trem local, denominada Mauá, em homenagem ao Barão, que possuía terras na região. Desta forma, toda a região em torno da nova estação passou a se chamar também Mauá, e o nome Pilar, que fazia referência ao Caminho do Pilar, que ligava a Vila de São Bernardo a Igreja do Pilar, acabou sendo abandonado.

Insígnia jesuítica na porta do Museu Barão de Mauá

A área do atual Grande ABC foi inicialmente habitada pelos índios Guaianazes, que foram expulsos da região pelos índios Tupiniquins. A região específica onde se encontra Mauá atualmente foi ocupada formalmente a partir do século XVIII. Toda a área era dividida entre três fazendas, a Bocaina, cuja sede hoje abriga o Museu Barão de Mauá, a do Oratório, que abrangia partes da capital e do atual município de Santo André, e a do Capitão João.

Mauá começou a se tornar importante economicamente com a chegada da ferrovia que ligava São Paulo ao porto de Santos, que apresentou grandes desafios aos engenheiros britânicos, responsáveis por sua construção, a partir de 1860. Uma curiosidade é que o caminho que era utilizado pelos índios para circular na região é o mesmo que é hoje utilizado pela estrada de ferro, pois os ingleses aproveitaram a trilha descoberta pelos indígenas. A outra trilha indígena usada antigamente é a que hoje é conhecida com o a Estrada Velha do Mar. A nova ferrovia teve grande importância econômica, pois permitia o escoamento da grande produção cafeeira proveniente do Estado de São Paulo até o porto de Santos, de onde era transportada para outras parte do Brasil e do mundo. O povoado de Pilar, posteriormente Mauá, foi beneficiado pela criação de uma estação dentro de seu território, o que alavancou sua economia de forma decisiva e marcante.

Na época da fundação da Vila do Pilar, tal povoado pertencia à São Bernardo. No entanto, Santo André sempre exerceu maior influência sob o novo município, que viria se tornar Mauá. Em 1938, Mauá foi integrada ao município de Santo André, o que perdurou até 1953, quando um plebiscito local permitiu que a população optasse pela autonomia do município de Mauá.

A primeira atividade econômica desenvolvida na região, ainda no início do século XIX, foi a extração de pedras, ao longo do antigo Caminho do Pilar, depois denominado Estrada das Pedreiras. Toda essa região tornou-se fornecedora de matéria prima para a produção de paralelepípedos e calçadas de ruas no Grande ABC e na cidade de São Paulo.

Mauá tem uma forte tradição industrial e, durante muito tempo, foi conhecida nacionalmente como a “Capital Nacional da Porcelana”. Entre as principais indústrias que se estabeleceram no município podemos mencionar a Porcelana Mauá, pioneira no ramo de porcelana fina no Brasil; a Indústria Matarazzo; a Cerâmica Cerqueira Leite; a Atlantis (britânica), e o Curtume Mauá. As décadas de 1940 e 1950 foram o apogeu econômico da região, pois suas indústrias de porcelana produziam e comercializavam seus artigos em todo o Brasil, Europa e Estados Unidos.

Dois fatores foram fundamentais para o estabelecimento da indústria ceramista na região: o solo rico em argila branca e a fixação na região de imigrantes com vasto conhecimento das técnicas ceramistas.

A chegada da indústria petroquímica na cidade se deu em 1953, com a implantação da Refinaria União, que iniciou suas operações no ano seguinte, empregando 700 funcionários na que era então a maior refinaria do país, nas mãos do capital privado. Em 1974, em meio à crise do petróleo, o governo do Regime Militar comprou a maior parte das ações da refinaria, tornando a Petrobrás a responsável por sua gestão. Até hoje o setor industrial é o que mais gera empregos e contribui para a arrecadação de impostos no município.

Atualmente, grandes indústrias tem suas fábricas em Mauá. Entre elas, podemos citar a Firestone, Tintas Coral, Goodyear, Valisère, Philips, Petrobrás, Alcan, Cofap, Suzano Petroquímica e Braskem. Mauá apresenta atualmente o 62º maior Produto Interno Bruto (PIB) dentre todos os municípios brasileiros. Um dos fatores que contribui para tal relevância econômica é o acesso facilitado ao Rodoanel, um dos mais importante eixos rodoviários do Brasil.

Dentre as atrações turísticas do município, podemos destacar duas principais: o Museu Barão de Mauá e o Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia.

Parque Gruta de Santa Luzia

O Parque Ecológico da Gruta de Santa Luzia é uma área de vegetação da Mata Atlântica em recuperação, sendo considerado uma Área Especial de Interesse Ambiental (AEIA). O parque teve seu paisagismo projetado pelo renomado Roberto Burle Marx, que se inspirou no bosque de Konstanza, entre a França e a Suíça. Foi criado em 1975 a fim de preservar as nascentes do Rio Tamanduateí.

Dentro do parque podemos visitar a minúscula Gruta de Santa Luzia, cujo acesso se dá através de uma pequena escada esculpida na pedra. O parque em si é bastante amplo e grandemente utilizado pela população local para atividades de lazer.

A segunda atração mais importante da cidade é o Museu Barão de Mauá, que foi sede da grande fazenda Bocaina. Atualmente o museu é o principal responsável pela preservação da memória local e pela pesquisa histórica do município. A casa na qual o museu está estabelecido foi construída ao longo do século XVIII, através do emprego da técnica da taipa de pilão, tendo sido tombada pelo patrimônio histórico por ser um magnífico exemplo de Casa Bandeirista. Em 1982 foi desapropriada e se tornou então sede do Museu Barão de Mauá. Infelizmente não há objetos relativos ao Barão de Mauá dentro do museu, apenas objetos desconexos, acumulados sem nenhum critério museológico aparente. O maior atrativo do local é a casa em si, que está muito bem mantida. Há discussões inconclusivas entre os vários historiadores e estudiosos do local, pois considera-se que em algum momento tal casa tenha sido ocupada pelos jesuítas, pois em uma das portas se encontra um símbolo jesuítico talhado nela, visível até os dias de hoje.

Igreja de Santo Antônio – Ribeirão Pires

RIBEIRÃO PIRES

A região onde se encontra atualmente a cidade de Ribeirão Pires se chamava originalmente Caguassu, cujo significado é “mata grande”. A história da cidade é profundamente ligada à de Mauá, pois o povoado de Pilar, antigo nome de Mauá, se desenvolveu em torno da Capela de Nossa Senhora do Pilar, que foi construída em 1714 e até hoje está localizada no município de Ribeirão Pires.

A história de Ribeirão Pires se iniciou no período colonial, quando era um caminho de passagem do litoral ao planalto de Piratininga, onde se situaria futuramente a cidade de São Paulo.

O nome da cidade surgiu quando as duas famílias mais importantes da região, os portugueses da família Pires e os espanhóis da família Camargo, arranjaram um casamento entre seus filhos para pôr fim às rivalidades e desavenças que vinham ocorrendo há muitos anos entre ambas famílias. O novo casal se fixou na confluência do rio Ribeirão Pires e rio Grande. Tal local passou a ser denominado como Ribeirão dos Pires, posteriormente, sendo encurtado para simplesmente Ribeirão Pires.

Em 1549, tendo em vista os constantes ataques dos índios Tamoios aos Tupi Guaranis que viviam na região atual de Ribeirão Pires, foi necessário construir um posto de observação protegido por uma paliçada, que pudesse auxiliar seus guardiães de possíveis ataques dos Tamoios. Dentro de tal paliçada foi construída uma pequena capela, exatamente no mesmo local onde se encontra a Igreja de Santo Antônio, no topo do Mirante Santo Antônio.

A atual igreja foi construída entre 1942 e 1950 pela Associação Beneficente Amigos de Santo Antônio, uma entidade constituída por carregadores do antigo pátio ferroviário que foram impedidos de frequentar sua igreja original, devido à desentendimentos com o proprietário do terreno. Devido à tal situação, reuniram esforços e ergueram seu novo templo, a 807 metros acima do nível do mar, em um local que possui uma das melhores vistas da cidade e de toda a ferrovia que corta a região.

Capela de Nossa Senhora do Pilar – Ribeirão Pires/SP

No entanto, a maior atração da localidade é a bela Capela de Nossa Senhora do Pilar, marco importantíssimo na história de Ribeirão Pires e de Mauá. Situada no topo de uma longuíssima escadaria em formato de zigue-zague, parece abençoar toda a região, com sua história e tradição. Lá do topo se tem uma bela vista das redondezas e pode-se visitar um grande exemplar de construção bandeirista. A capela foi construída por Antônio Correa de Lemos, Capitão Mor da Capitania de São Vicente, em 1714. Ele foi um respeitado bandeirante que explorou a atividade da mineração e acabou ficando enfermo. Fez uma promessa de que se recuperasse sua saúde ergueria um templo em homenagem à Nossa Senhora do Pilar, do qual era devoto. Como esse milagre ocorreu, Antônio Correa de Lemos cumpriu sua promessa e construiu a capela, que surpreendentemente permanece praticamente intacta e em perfeito estado de conservação até os dias de hoje. Seria esse mais um dos milagres promovidos por Nossa Senhora do Pilar?

Se esse meu breve relato despertar sua curiosidade, vá pessoalmente conhecer os locais descritos acima e os divulgue, contribuindo você também para a valorização e reconhecimento desse importante patrimônio para todos os brasileiros e, em particular, para todos os amantes da história e cultura do Brasil.

Marco André Briones – marcoandrebriones@cidadeecultura.com.br

Todas as fotos da matéria foram tiradas por Marco André Briones, em novembro de 2018.

Bibliografia usada:

Mauá – Entendendo o passado, trabalhando o presente e construindo o futuro – de William Puntschart

Etapas evolutivas de Ribeirão Pires – de Antonio Simões