Bananal, avalista do império

Bananal é uma cidade bastante peculiar, além de ser extremamente importante para a história do Brasil. Apesar de ser uma cidade paulista, Bananal conserva as características e a atmosfera tranquila de uma cidade do interior do Rio de Janeiro. O povo bananalense tem um estilo de vida e hospitalidade muito próximo dos habitantes das cidades fluminenses.

Bananal
Praça Rubião Jr. – Antigo Cemitério do índios Puris. Foto Marco André Briones

Localizada a 316 km de São Paulo e a 164 km do Rio de Janeiro, o local onde está situada a cidade de Bananal atualmente, originalmente era habitado pelos índios Puris. Prova disso é que na atual Praça Rubião Junior foram encontradas ossadas, vestígios de um cemitério dos Puris.

A denominação da cidade, de origem tupi, vem do rio que cruza a cidade, o Banani, que significa “rio sinuoso”, e era como os índios Puris se referiam ao rio que corta a região.

Chegada dos Bandeirantes

A região de Bananal foi desbravada pelos bandeirantes. No entanto, por um longo período após sua abertura, a região de Bananal continuou despovoada, exceto por alguns agrupamentos formados pelos desbravadores e, posteriormente, pelos tropeiros que circulavam por ali. Entretanto, ali já haviam surgido algumas culturas que foram iniciadas pelos primeiros povoadores e por aventureiros que haviam se desiludido com o sonho de enriquecer com as minas das “Geraes”. Muitos desse indivíduos se apossaram ou adquiriram terras por compra ou herança.

Bananal
Igreja Nossa Senhora da Boa Morte. Foto Marco André Briones

Com o passar do tempo, foram surgindo os ranchos e pousos para atender à conveniência dos tropeiros que circulavam na região. As cidades fundadas pelos tropeiros estão estrategicamente situadas a uma distância aproximada de 24 km entre si, pois era a distância que eles conseguiam percorrer durante um dia de viagem até que precisassem repousar durante a noite, antes de prosseguir em seus caminhos no dia seguinte.

Os tropeiros que vinham do sul de Minas Gerais com destino a Angra dos Reis começaram a fazer trilhas na região. Paravam nesta localidade para descansar e alimentar os animais, dormindo em um rancho grande, construído por eles mesmos. Este rancho, por volta de 1906, foi demolido e no local foi construída a atual igreja de N.S. Sant’anna.

O Arraial do Bom Jesus do Livramento de Bananal surgiu de uma sesmaria, por volta de 1783. No princípio era apenas uma pequena povoação iniciada por João Barboza de Camargo e sua esposa, D. Maria Ribeiro de Jesus, que foi crescendo em volta à capelinha por eles erguida. A povoação de Bananal pertencia primeiramente ao município de Lorena. Mesmo antes de ser elevada à Vila, Bananal possuía sua própria paróquia, desmembrada da de Areias em 1811. Em 1849, Bananal se tornou uma cidade.

Ciclo do Café

Bananal
Casarão Antigo – Foto Marco André Briones

No entanto, o que trouxe riqueza e reconhecimento à cidade foi o ciclo do café, conhecido na região como “ouro verde”. Graças ao café, a cidade de Bananal foi a mais rica do Vale do Paraíba durante praticamente todo o século XIX.

Em 1836, Bananal era o segundo maior produtor de café da província de São Paulo. Não é possível separar o desenvolvimento urbano do crescimento da cultura cafeeira bananalense. A riqueza produzida no local chegou a ultrapassar a arrecadação de impostos da capital. Além disso, devido à grande soma de impostos dali proveniente, Bananal chegou até mesmo a sustentar a economia do estado e até mesmo do país. É impressionante pensarmos que, durante o segundo reinado, Bananal era o centro da economia nacional e a terceira receita municipal de todo o Estado Brasileiro.

Bananal-Fazenda Loanda-Marcio Masulino
Fazenda Loanda. Foto Márcio Masulino

A riqueza do município era tão expressiva que banqueiros ingleses chegaram a pedir o aval de sua Câmara para a garantia de um empréstimo que o Governo Imperial negociava em Londres. Os avais dos fazendeiros bananalenses eram imprescindíveis nas grandes transações com bancos europeus, pois era grande o número de fazendeiros de Bananal que possuía grandes somas de dinheiro depositadas em bancos estrangeiros, especialmente em Londres, que era o centro financeiro mundial da época.

Durante a Guerra do Paraguai, os fazendeiros de Bananal também colaboraram com o governo imperial, fornecendo contingente humano para as batalhas e também avalizando títulos de empréstimos feitos a banqueiros ingleses pela Coroa brasileira.

Títulos de nobreza eram agraciados às pessoas mais ricas. Eram os cafeicultores e senhores de engenho que efetivamente trocavam favores com o imperador: títulos de nobreza por legitimação da Monarquia.

Barões do café

Em seu período áureo, Bananal chegou a ter 82 grandes fazendas de café e 8 engenhos de açúcar e aguardente.

Bananal
Estaçào Bananal. Foto Márcio Masulino

Os barões do café, que formavam a elite do Império, tinham dinheiro depositado em bancos estrangeiros e financiaram obras como a construção do ramal bananalense da Estrada de Ferro, que passava pelas fazendas mais ricas da região, transportando o “ouro verde” produzido na região e o levava até Barra Mansa, no Rio de Janeiro.

Os recursos dos grandes cafeicultores de Bananal eram tão vultuosos que a estação ferroviária de Bananal foi construída na Bélgica e montada na cidade em 1889. É totalmente metálica e seus assoalhos são todos de pinho de Riga. Sua arquitetura é única em toda a América Latina.  Ela foi restaurada e pelo CONDEPHAAT e atualmente abriga uma biblioteca municipal.

Bananal chegou a ter uma orquestra permanente com duas bandas de música, especializadas em óperas europeias. Por algum tempo também, a cidade teve sua própria moeda, que era aceita também em Barra Mansa e no Rio de Janeiro.

Bananal
Igreja Matriz. Foto Marco André Briones

Em torno da Igreja Matriz, casarões exibiam os brasões de seus proprietários, e tanto residências urbanas quanto rurais exibiam azulejos portugueses, cristais belgas e uma enorme quantidade de artefatos e móveis importados. As sedes das fazendas se transformaram em verdadeiros palacetes.

Em Bananal existe a farmácia mais antiga do Brasil ainda em operação. Trata-se da “Pharmacia Popular”. Ela foi inaugurada em 1830 pelo boticário francês Tourin Monsier, o primeiro farmacêutico da cidade.

Visita de D. Pedro I

Foi pela Estrada dos Tropeiros, que liga Bananal à Silveiras, que D.Pedro I passou na viagem entre Rio e São Paulo, no ano de 1822, quando o Brasil conquistou sua independência. Atualmente ela é conhecida como SP-68. A mesma estrada serviu de base para a antiga Rio-São Paulo.

Bananal hospedou D. Pedro II por duas vezes, sempre na Fazenda Três Barras, que o recebeu com muitas festas e homenagens, que se espalharam por toda a cidade.

Bananal
Foto Marco Andre Briones

O período de riqueza e prosperidade chegou ao fim, impulsionado por fatores como a exaustão da terra, explorada ininterruptamente por tanto tempo, a abolição da escravatura em 1888, que dificultou o acesso à mão de obra e a abertura da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que viabilizou a expansão das plantações de café no Oeste Paulista pela possibilidade de escoamento da produção em pontos mais distantes do litoral. As grandes fortunas herdadas foram se perdendo, as fazendas foram sendo vendidas e o gado foi ocupando o lugar do café. Eu mesmo pude presenciar isso em minha visita, pois tive grande dificuldade em encontrar café produzido em Bananal, pois a região atualmente foi tomada pela produção pecuária.

No período de escravidão no Brasil, a população escrava de Bananal era maior do que a de brancos, pois o número de escravos usados nos serviços domésticos havia aumentado consideravelmente com a expansão e enriquecimento das fazendas produtoras de café.

Na época da abolição da escravatura, as sedes das fazendas haviam sido transformadas em verdadeiros palácios, decorados com móveis importados e afrescos de pintores europeus nas paredes. Havia cristais belgas, azulejos portugueses, baixelas inglesas, objetos femininos franceses e obras de arte de todo o mundo.

Imigração

Antes mesmo do fim da escravatura, os grandes barões do café já vinham tentando diversificar seus negócios e, consequentemente, reduzir os riscos inerentes à dependência do negócio do café. Desta forma, começaram a estimular a vinda de imigrantes de várias partes do mundo para ajuda-los a diversificar seus negócios.

Bananal
Chafariz de Bronze. Foto Marco Andre Briones

Os chineses começaram a chegar em Bananal após um pedido feito pela Câmara Municipal de Bananal, em 1835, pois se queria abrir uma nova opção agroindustrial além do café, a do chá. Os chineses começaram a chegar, mas sem terem uma orientação apropriada, acabaram abandonados à própria sorte e foram se ocupando em atividades urbanas, com pequenos comércios, venda de água, lavanderias e, principalmente, com a fabricação de fogos de artifício. Isso deu um apelido à uma rua, a Rua do Fogo, pelas constantes explosões que lá ocorriam. Por imposição de uma lei, os chineses de Bananal passaram a adotar nomes nacionais para poderem comercializar e casar.

Os libaneses começaram a chegar em Bananal no final da década de 1890 e foram trabalhar como mascates, vendendo tecidos e criando armarinhos nas fazendas de café.

A cidade também foi cenário de outros momentos históricos. Bananal foi o primeiro município paulista a ser invadido e atravessado pelas forças de Getúlio Vargas durante a Revolução de 1932. O próprio Getúlio Vargas passou por Bananal e foi até a frente de combate, junto com caminhões e ônibus de tropas de artilharia pesada.

Evolução

Bananal
Casarão Preservado. Foto Marco André Briones

Em 1951, a antiga estrada Rio-São Paulo deu lugar à grande Rodovia Presidente Dutra, cujo traçado desviava, definitivamente, o trânsito de todas as cidades do Vale do Paraíba. Tal obra teve consequências muito negativas para as cidades da região, como Bananal, que passaram a ter cada vez menos relevância e, aos poucos, infelizmente passaram a ser esquecidas.

Um fato pitoresco ocorreu em 1981, quando houve um jogo de futebol memorável na inauguração do estádio da cidade de Bananal entre a seleção da cidade contra veteranos do futebol nacional, entre eles, Garrincha, Vavá e Nilton Santos.

Atualmente, Bananal vive basicamente da atividade pecuária e do turismo, que tem florescido continuamente, devido à grande beleza da região e pela enorme concentração de lindas fazendas e casarões históricos. Muitos deles foram transformados em hotéis-fazenda ou pousadas, que estão sempre disponíveis para receber seus hóspedes de maneira calorosa e hospitaleira. Além disso, a culinária da região é muito boa, oferecendo produtos de excelente qualidade. Há também as festas comemorativas e tradicionais, que ocorrem anualmente. Não faltam motivos para que você programe a sua visita e vá conhecer essa cidade tão importante, histórica e charmosa que é Bananal.

 

Por Marco André Briones – marcoandrebriones@cidadeecultura.com.br

Bibliografia usada:

  • Bananal – Terra dos Barões do Café, de Plínio Graça (org.)
  • O Caminho Novo: Povoadores de Bananal, de Píndaro de Carvalho Rodrigues
  • Bananal – Cidade Histórica – Berço do Café, de Maria Aparecida Rezende Gouveia de Freitas

 

Para saber mais dicas de turismo cultural e histórico no Brasil e no mundo, acompanhe a coluna de Marco André Briones no portal Cidade&Cultura

Bananal
Solar Aguiar Valim. Foto Marco André Briones