REAL FÁBRICA DE FERRO SÃO JOÃO DE IPANEMA

Real Fabrica de Ferro - Fazenda Ipanema
Real Fábrica de Ferro da Fazenda Ipanema. Fotos de Marco André Briones

Esta é a minha primeira matéria para o portal Cidade & Cultura. Para celebrar ocasião tão especial, decidi escrever sobre um local pelo qual eu sou fascinado e é muito importante para a história do Brasil. Infelizmente, ele é praticamente ignorado pela maioria dos livros de história brasileira, não havendo praticamente nenhuma referência ao local. Eu me refiro à Real Fábrica de Ferro da Fazenda Ipanema.

Trata-se do local onde foi criada a primeira forja de ferro do Brasil, em 1597, além de ter sido lá também onde foram criados o primeiro arado rústico do país, a primeira represa nacional e, além de tudo isso, a primeira siderúrgica do Brasil, no século XIX. Ipanema merece o título de “Berço da Siderurgia Nacional”, ocupando um lugar de destaque no desenvolvimento econômico do país.

Atualmente, a Fábrica de Ferro São João de Ipanema, denominada atualmente de Fazenda Ipanema, se situa no município de Iperó, próximo à cidade de Sorocaba, no estado de São Paulo, localizada à 120 km da capital. A viagem de São Paulo até a Fazenda Ipanema costuma durar aproximadamente 90 minutos, se for visitada de carro.

A sinalização de acesso à Fazenda Ipanema é bastante deficiente, especialmente quando nos aproximamos da estrada de terra que dá acesso ao local. A partir da estrada, é preciso percorrer aproximadamente 5 km em uma estrada de terra, sem qualquer sinalização, até a guarita no portão de entrada da fazenda. Eu pessoalmente recomendo aos interessados que usem algum aplicativo, como o Waze ou Google Maps, para conseguirem chegar ao local com mais facilidade. É interessante imaginarmos o quão difícil era o acesso à Fazenda Ipanema na época dos bandeirantes e desbravadores. A viagem que fazemos atualmente em menos de duas horas, para os pioneiros, chegava a levar até mesmo 18 dias, a partir de São Paulo.

O significado do nome Ipanema, na língua indígena, é de um “rio sem valor”, ou “rio sem peixes”, tendo em vista que há poucos peixes na região, sendo uma região de pouca valia para os indígenas que ali habitavam.

As primeiras atividades econômicas na região da atual Fazenda Ipanema ocorreram em fins do século XVI, quando Affonso Sardinha, “o Velho”, e seu filho, Affonso Sardinha, “o Mameluco”, construíram dois fornos rústicos, ou catalães, para a fundição de ferro, pois haviam descoberto minério de ferro e diorito na região. Há vestígios visíveis dos dois fornos até hoje na floresta local, que podem ser visitados através de uma trilha guiada. Os fornos de Ipanema são considerados os primeiros a serem criados nas Américas.

Tal empreitada realizada pelo pai e seu filho teve tamanha repercussão que atraiu até mesmo a visita do Governador Geral do Brasil na época, além de ter sido reconhecida em Salvador, que era a capital brasileira na época, e em Madri, que era a capital do Império Luso-Hispânico.

Em relação à mão de obra que era utilizada no funcionamento de tais fornos, como em 1691 havia sido proibido por lei que mantivessem índios em cativeiro, os operários usados para os trabalhos nos fornos e, posteriormente, na fábrica de ferro, foram majoritariamente feitos por escravos.

A fábrica de ferro teve sua origem em 1765. Já em 1769, os acionistas da fábrica de Ipanema tinham uma grande preocupação com a falta de mão de obra para fazer o empreendimento funcionar. Por tal razão, inicialmente os trabalhos foram executados por escravos alugados e trabalhadores estrangeiros contratados (suecos, alemães e prussianos). A partir de 1785 o estabelecimento passou por uma fase de dificuldades, pois Portugal proibiu o estabelecimento de fábricas e manufaturas no território brasileiro, exceto aquelas destinadas a produzir tecidos grosseiros para vestir os escravos. A fábrica somente iniciou efetivamente sua produção em 1808, quando D. João VI assinou o alvará que permitia o livre estabelecimento de fábricas e manufaturas no Brasil. Tal iniciativa teve o intuito de tentar modernizar a economia brasileira da época, além de também promover uma maior ocupação do território nacional.

A produção de ferro no local tomou novo impulso com a chegada do sueco Dr Hedberg, que foi responsável pela construção da Casa da Guarda, da ponte articulada e da Sede Administrativa, além de ter criado a primeira represa do Brasil, que leva o seu nome. Juntamente com ele, vieram vários operários da Suécia, que o ajudaram no processo de ampliação da produção de ferro local.

Me estristeceu ver que as casas que foram utilizadas como moradia pelos operários que trabalhavam e moravam na Fazenda Ipanema estejam atualmente abandonadas, com risco de desabamento e interditadas à visitação dos turistas. A vegetação está tomando conta do local e, aos poucos, encobrindo tais marcos, que poderiam estar sendo usados como lugares turísticos, tais como cafés, restaurantes, lojas de lembranças e souvenirs, entre outros.

O administrador que sucedeu ao Dr Hedberg foi Frederico Guilherme Varnhagen, de origem germânica, que construiu dois altos fornos, incrementando enormemente a produção de ferro local. O filho deste, Adolfo de Varnhagen, nasceu no local e, posteriormente, se tornou um famoso historiador, sendo conhecido como o “Pai da História do Brasil”.

No dia 1º de novembro de 1818, dia de Todos os Santos, durante a gestão de Varnhagen, o ferro correu pela primeira vez em um dos altos fornos pela primeira vez no Brasil. O primeiro ferro produzido no Brasil foi usado para preencher os moldes de três grandes cruzes, ainda visíveis até hoje, estando uma delas no terreno da própria Fazenda Ipanema, a segunda no Museu Histórico de Sorocaba e uma terceira, no topo da montanha Araçoiaba, no Parque Municipal Quinzinho de Barros.

Varhagen tinha como objetivo principal que os materiais produzidos localmente, tais como caldeiras, tachos e cilindros pudessem atender não apenas os engenhos açucareiros da região de Sorocaba, Itu e Porto Feliz, mas também os locais mais distantes da capitania de São Paulo. No entanto, como havia falta de infraestrutura, estradas e transportes, tais fatores faziam com que os preços dos produtos fossem mais elevados, tornando-os menos competitivos.

A força motriz em Ipanema sempre foi proporcionada pelas águas da represa de Hedberg. A fábrica de Ipanema chegou a ter 29 rodas d’água, que moviam diferentes máquinas e engenhos.

Já o transporte de minério de ferro, este era feito por trens, cujas locomotivas ainda se encontram na Fazenda Ipanema, sendo uma atração especial para as crianças, que adoram brincar nelas.

Um fator que é pouco discutido e lembrado na história da fábrica de Ipanema é a importância que a mão de obra escrava teve em tal empreendimento. Centenas de escravos trabalharam no local durante toda o seu período operacional. As jornadas de trabalho de tais escravos era duríssima, pois os trabalhos diários começavam às 5 horas da manhã e só terminavam às 20h. Durante o verão, tinham meia hora para o almoço e uma hora e meia para o jantar. No inverno, tinha meia hora para o almoço e apenas uma hora para o jantar. Nem o sol ardente ou a chuva eram motivos para a interrupção do trabalho.

Durante todo o século XIX, Ipanema foi um local de enorme importância econômica. Ela era constantemente visitada por personalidades ilustres nacionais e estrangeiras. Dentre elas, podemos mencionar José Bonifácio, Gustavo Capanema, o Conde D’Eu e, sobretudo, o imperador D. Pedro II, que esteve na Fazenda Ipanema em várias ocasiões, tendo em vista que ele era um grande admirador de realizações tecnológicas e científicas.

Ainda hoje é visível, no prédio da Casa da Guarda, o antigo depósito de minerais, que foi posteriormente transformado em quartel e prisão militar, uma linda porta comemorativa, com inscrições alusivas à maioridade de D. Pedro II, que visitou o local pela primeira vez em 1846.

Há também uma ponte articulada, fabricada na Inglaterra, trazida para o Brasil em 1811. A construção da mesma previa a dilatação e contração do metal pela variação de temperatura.

Com a chegada da ferrovia até Sorocaba, o Imperador D. Pedro II retornou à Ipanema, desta vez, acompanhado da Imperatriz Teresa Cristina e de outros membros da família imperial. D. Pedro II ficou hospedado, com toda sua comitiva, na atual sede administrativa. Uma curiosidade em relação à primeira visita de D. Pedro II ao local, foi que ele esporadicamente criou o hábito de conceder cartas de liberdade aos filhos das escravas que trabalhavam na fábrica de Ipanema.

Um outro fato curioso sobre o local é que Gustavo Capanema, o Ministro da Educação que mais tempo ficou no cargo em toda a história do Brasil, ao visitar o local, estabeleceu um meridiano, que marca até hoje a passagem do Trópico de Capricórnio, através de um relógio de sol no topo de um pilar de alvenaria.

A Fábrica de Ferro de Ipanema teve uma produção muito ativa durante muitos anos. Ainda hoje podemos encontrar, em diversos pontos do Brasil, seus produtos. Entre eles, estão um canhão no Museu do Ipiranga, em São Paulo, e dois outros canhões, na Praça do Canhão, em Sorocaba.

Ipanema sempre foi um local de pioneirismo na História do Brasil, pois desde o início do século XX já havia luz na localidade.

Durante a década de 1850, a fábrica de ferro entrou em decadência, devido em grande parte aos prejuízos constantes gerados pela pouca demanda por seus produtos. Os maiores consumidores de produtos fabricados no local eram os fazendeiros da província de São Paulo e de parte de Minas Gerais, que compravam peças para o maquinário de ferro de seus engenhos de açúcar. Porém, quando tais fazendeiros perceberam que a cultura cafeeira era mais rentável, acabaram abandonando a cana de açúcar e, consequentemente, deixaram de adquirir os produtos fabricados na fábrica de ferro de Ipanema, o que gerou um enorme decréscimo em sua receita financeira. A expansão da lavoura do café trouxe mudanças consideráveis no mercado consumidor das cidades do interior de São Paulo. Vários produtos que eram produzidos na fábrica de Ipanema já não satisfaziam mais as novas técnicas agrícolas. A fábrica acabou sendo desativada no final da década de 1850.

Após o encerramento de suas atividades, seus equipamentos e equipe, entre eles um contingente de escravos, foi todo deslocado para Mato Grosso, principalmente para a Colônia Militar de Itapura, pois era próxima ao Paraguai, estando situada na confluência dos rios Tietê e Paraná. Além disso, poderia auxiliar no controle da fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Se pretendia criar uma fábrica de ferro e outra de pólvora na região matogrossense. Embora tenham consumido muitos recursos, tais obras nunca foram concluídas, excetuando-se o projeto militar em Itapura.

Em 1863 o governo começou a aventar a possibilidade de reativar a fábrica de Ipanema, cujos equipamentos e instalações estavam em total estado de abandono e deterioração. Foi nessa época que se decidiu restaurar a fábrica, tendo sido nomeado o Coronel Joaquim de Souza Mursa para liderar tal empreitada.

O administrador que sucedeu Varnhagen, o Coronel Mursa, também teve um importante papel no desenvolvimento da Fazenda Ipanema. Foram criados sete fornos de carvão, do tipo silo colmeia, para o preparo de combustível. Infelizmente, eles não chegaram a ser utilizados, pois a fábrica de ferro foi desativada antes que eles pudessem entrar em operação.

Embora tenha sido feito um grande esforço para reativar a fábrica de ferro, ainda assim o local continuou sendo um grande peso para as finanças públicas, pois lhe faltavam três elementos indispensáveis ao seu correto funcionamento: lenha, mão de obra e equipamentos. Nem mesmo os escravos libertos queriam trabalhar em Ipanema.

A Fábrica de Ipanema poderia ter sido de grande importância para a História do Brasil durante a Guerra do Paraguai. Cogitou-se efetuar a reativação da fábrica de Ipanema para se produzir materiais bélicos que pudessem ser usados no conflito. No entanto, a fábrica nunca produziu armamentos que foram usados durante a guerra, pois quando ela ocorreu a fábrica já se encontrava desativada e em péssimo estado de conservação, sem estrutura e trabalhadores, o que impossibilitou que pudesse a vir contribuir com o esforço de guerra nacional. A solução encontrada pelo Império foi a de instalar no Arsenal de Guerra da Corte, no Rio de Janeiro, uma fundição que utilizava ferro importado para efetivamente produzir os materiais bélicos que foram usados na Guerra do Paraguai. Além disso, o governo importou fuzis e revólveres de alguns países europeus.

Em 1895, o presidente Prudente de Morais assinou um decreto declarando encerradas as atividades da fábrica de Ipanema. Nos anos seguintes, a fábrica passou por um período de total abandono, servindo de quartel do exército, treinamento rural e indústria de tratores, todos eles sem sucesso.

Quando visitei o local pela primeira vez, em 2007, eu encontrei quatro dos fornos construídos pelo Coronel Mursa ainda visíveis, em estado razoável de conservação. Na minha visita mais recente, em agosto de 2018, infelizmente um dos quatro fornos remanescentes havia desabado. Se não forem iniciados trabalhos de recuperação com urgência, em breve os outros três fornos remanescentes também desaparecerão.

Um outro local que também precisa de restauro imediato é a ponte que se encontra entre a Casa de Armas Brancas e a Serraria, a primeira mecanizada do Brasil. Em 2007, eu pude atravessá-la com segurança. Atualmente, ela está interditada, em péssimo estado, com risco de desabamento.

Felizmente, houve o tombamento das ruínas e locais históricos dentro de toda a Fazenda Ipanema. No entanto, é indispensável que tal local, tão importante para a história nacional, seja mais conhecido, visitado e valorizado por novas gerações de brasileiros.

Temos o dever de preservar este maravilhoso museu ao ar livre, que é a Real Fábrica de Ferro da Fazenda Ipanema, um patrimônio de inestimável valor e um dos maiores componentes da História Econômica do Brasil.

Por fim, quero convidar todos os leitores desta matéria que não deixem de visitar este local tão especial. Posso lhes garantir que não irão se arrepender, pois poderão tirar lindas fotografias, vivenciar um local especial e conhecer uma parte muito importante da história do nosso Brasil.

Marco André Briones – marcoandrebriones@cidadeecultura.com.br

Todas as fotos da matéria foram tiradas por Marco André Briones, em agosto de 2018.

Bibliografia usada:

O Esconderijo do Sol, de José Monteiro Salazar
Soldados e Negociantes na Guerra do Paraguai, de Divalte Garcia Figueira
Entre a Fábrica e a Senzala, de Mariana Alice Pereira Schatzer Ribeiro.
Bibliografia usada: O Esconderijo do Sol, de José Monteiro Salazar.

 

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