Paranapiacaba – Um enclave inglês no Brasil

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Pátio dos trens em Paranapiacaba – Fotos: Marco André Briones

Um pequeno pedaço da Inglaterra em meio à Mata Atlântica do Estado de São Paulo. Provavelmente essa seja a melhor definição da Vila de Paranapiacaba.

Escondida no topo da serra a 796 metros acima do nível do mar, a Vila de Paranapiacaba foi construída de forma planejada por engenheiros ingleses, que foram os responsáveis pela construção da ferrovia Santos-Jundiaí. Ela se situa próxima às nascentes dos rios Grande e Pequeno que, juntos, são formadores da Represa Billings.

Com a crescente produção cafeeira no Estado de São Paulo, que cobria vastas fazendas até a região de Ribeirão Preto, o escoamento das safras se tornou inviável através do transporte no lombo de mulas, como foi feito durante muito tempo. Foi desse impasse que surgiu a ideia de se construir uma ferrovia que ligasse Jundiaí, um dos grandes polos cafeeiros, até o porto de Santos, para que a produção pudesse ser escoada em quantidade muito maior e com velocidade crescente.

O Governo Imperial concedeu tal empreendimento ao Barão de Mauá, por considerá-lo apto a enfrentar tal dura empreitada, que envolvia o enorme desafio de se transpor a serra entre a baixada santista e o interior do estado.

O Barão de Mauá consultou engenheiros ingleses que, na época, eram os melhores do mundo, pois haviam adquirido uma enorme experiência em criar ferrovias dentro do próprio Reino Unido durante a Revolução Industrial. Tais engenheiros consideraram que era viável a construção da ferrovia Jundiaí-Santos.

A fim de que se superasse o obstáculo existente da serra, foi proposta a adoção do sistema funicular. A subida do litoral ao planalto seria dividida em quatro declives e, na ponta de cada rampa seria criado um patamar no qual seriam montadas casas de força e máquinas a vapor. Elas seriam responsáveis pela tração dos cabos de aço que a serem utilizados para puxar as locomotivas serra acima e nas descidas, para evitar que elas chegassem ao litoral em alta velocidade e perdessem o controle. Para viabilizar tal feito de engenharia foram posicionadas paredes maciças para conter os taludes da serra e pontes e viadutos metálicos para ligar as encostas da serra.

Um projeto de tal magnitude denotou a necessidade de ser fundada uma vila para abrigar os operários que trabalhariam durante anos na grandiosa obra ferroviária. Essa vila seria o local onde residiriam os engenheiros e operários da São Paulo Railway. Daí surgiu a Vila Martin Smith, que foi posteriormente renomeada Vila de Paranapiacaba, tendo sido tombada pelo Condephaat em 1987, por ser considerada um patrimônio histórico nacional. O nome da vila, no idioma tupi, significa “lugar de se ver o mar, ou da visão do mar”, pois da região é possível se ver o mar em Santos.

Inicialmente, a estação que foi estabelecida na localidade foi apropriadamente denominada de “Alto da Serra”. Posteriormente, seu nome foi mudado para Paranapiacaba. A estação atual, preservada até os dias de hoje, foi construída em ferro e madeira e coberta por telhas francesas provenientes do Reino Unido.

Com o surgimento da nova ferrovia e, consequentemente, da Vila de Paranapiacaba, a exportação de café ao exterior pôde prosseguir em uma escala muito maior, com um ritmo consideravelmente mais intenso de circulação de carga.

Durante o período entre 1890 e 1945, a vila foi administrada pela São Paulo Railway, por parte dos ingleses. A partir do término da concessão, em 1946, a ferrovia foi encampada pela União, que assumiu sua gestão.

O ponto mais marcante da vila, e seu principal cartão postal, é a torre do relógio, fabricado em Londres pela empresa Johnny Walker Benson, que não é a mesma produtora do whisky de mesmo nome.

Por ter sido um projeto idealizado e implementado pelos ingleses, Paranapiacaba possui um traçado ímpar no Brasil, pois tem suas ruas, casas e vielas sanitárias totalmente inspiradas no estilo arquitetônico existente na Inglaterra da época. Um exemplo disso é o uso do pinho de riga nas construções, considerado tipicamente característico do estilo vitoriano.

Há várias construções remanescentes até hoje na vila. Uma delas é o Clube União Lyra Serrano, no qual é realizado anualmente um renomado Festival de Inverno, onde se apresentam atrações musicais internacionais e nacionais, além haver de uma intensa oferta de oficinais, peças de teatro, eventos culturais, gastronômicos e feiras de artesanato, entre outros. Além disso, o clube possui um dos campos de futebol mais antigos do Brasil, onde provavelmente foi realizada a primeira partida oficial do país, com a participação de Charles Miller, o introdutor do futebol em terras brasileiras.

Podemos também ver e fotografar muitas residências originais, que foram construídas respeitando a hierarquia dos funcionários da ferrovia. O funcionário mais graduado residia no casarão conhecido como “Castelinho”, pois fica isolado no alto da serra, com uma vista privilegiada de toda a Vila de Paranapiacaba. Os quarteirões residenciais foram planejados de forma que rapidamente pudesse se encontrar qualquer funcionário, de acordo com o seu posto na hierarquia local. Os engenheiros e suas famílias moravam em casas grande e com varandas. Já os operários residiam em casas menores e de construção mais simples. Todas elas ainda permanecem no local e são habitadas por alguns descendentes dos moradores originais. Outras foram vendidas e possuem novos proprietários, sem qualquer vínculo com os imigrantes ingleses.

A estação ferroviária é a maior atração da cidade, pois nela podemos conhecer de perto algumas locomotivas originais, embora elas se encontrem mal preservadas. Há passeios guiados por todo o pátio, oficinas e casas de máquinas ainda existentes. É um passeio que agrada muito os visitantes, especialmente as crianças, que adoram ver os vagões e brincar de maquinistas.

A vila é muito procurada pelos turistas, especialmente no período do inverno e outono pois frequentemente ela se encontra envolta em uma intensa bruma, que dá um aspecto londrino ao local, nos remetendo facilmente à época em que a vila era residência de uma considerável comunidade inglesa.

É também usada regularmente como local para ensaios fotográficos por famílias, casais, gestantes e artistas que aproveitam a atmosfera de mistério que existe no local para elaborarem suas obras.

Outra bela atração na vila é a Igreja Bom Jesus de Paranapiacaba, que possui um cemitério em sua lateral. A igreja em si é muito bonita, com sua fachada amarela, contrastando com o céu azul da região. Além disso, do cemitério e da igreja se tem uma ótima vista panorâmica de toda Paranapiacaba.

Eu recomendo fortemente uma ida à Paranapiacaba para todos que estejam buscando um magnífico cenário para suas fotos, também para aqueles que gostem da atmosfera da serra e aos amantes da história do Brasil. Garanto que não se arrependerão da visita a esse pedacinho do Brasil desbravado pelos ingleses.

Bom passeio!

Marco André Briones – marcoandrebriones@cidadeecultura.com.br

Todas as fotos da matéria foram tiradas por Marco André Briones, em março de 2016.

Bibliografia usada:

Caminho do Mar – História e Meio Ambiente

A História de Paranapiacaba – Vicente Lamarca

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