A mostra Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira percorre cinco décadas da produção do artista-sacerdote. Dividida em núcleos temáticos, apresenta novas interpretações de sua atuação artística, política e religiosa. Em três andares, reúne esculturas, arquivos, registros documentais, objetos e obras de Didi e de outros artistas do modernismo afro-brasileiro e das gerações seguintes em diálogo com o mestre
Deoscóredes Maximiliano dos Santos nasceu em Salvador em 1917. Morreu na mesma cidade em 2013, passados 96 anos, conhecido nacional e internacionalmente como o artista-sacerdote Mestre Didi. No próximo dia 7 de abril, às 19h, o Itaú Cultural (IC) abre a exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira, primeira grande mostra individual do artista no Brasil em mais de 15 anos. No total, os pisos 1, -1 e -2 do IC reúnem 170 peças – 50 delas são esculturas do mestre.
Na abertura, o terreiro Ilê Asipá apresenta Oro Ojés, cerimônia tradicional realizada em todas as festividades do espaço fundado pelo próprio Didi, em Salvador. Na performance, os Ojés, sacerdotes da casa, entoam cantigas sagradas permitindo uma vivência da tradição no IC. A mostra encerra em 5 de julho.
Didi não está só: às suas 50 obras escultóricas expostas somam-se livros, fotos, produções carnavalescas, esboços, anotações e cartas do acervo documental da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil (SECNEB), fundada por ele e que está aos cuidados do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, além de materiais audiovisuais produzidos pela equipe do IC. A mostra joga foco no diálogo traçado em sua obra com outros modernistas afro-brasileiros e artistas das gerações seguintes que beberam de sua fonte. São 16 – sete deles comissionados, como Nádia Taquary, Goya Lopes e cinco artistas do Ilê Asipá, onde Mestre Didi exerceu sacerdócio como Alapini (veja mais abaixo a lista de todos os artistas).
Uma versão desta exposição, chamada Mestre Didi: spiritual form, foi vista no Museo del Barrio, em Nova York, em 2025, com 30 esculturas de Mestre Didi e obras de artistas contemporâneos. A edição brasileira tem concepção e realização do Itaú Cultural, curadoria de Ayrson Heráclito – que, em maio participará da Biennale Arte 2026, em Veneza – e Rodrigo Moura, assistência curatorial de Tiago Sant’Ana e expografia assinada por Francine Moura.
Ao reunir esculturas, arquivos e produções modernas e contemporâneas, a exposição atualiza o debate sobre a inserção de Mestre Didi no circuito da arte, destacando sua atuação como artista, pesquisador e sacerdote, e suas relações entre forma, rito e linguagem no contexto da arte brasileira.
“A obra de Mestre Didi parte de um conhecimento ancestral ligado à produção de importantes implementos litúrgicos, como o Ibiri e o Xaxará, relacionados ao culto dos orixás”, conta Moura em depoimento que pode ser visto na mostra. “Ao inserir esses trabalhos no circuito da arte, a partir dos anos de 1960, ele passa a criar recombinações, introduzir novas simbologias, ampliar escalas e incorporar materiais, complexificando de maneira impressionante esse fazer”, explica, concluindo que a narrativa curatorial da mostra acompanha esses desenvolvimentos menos desvendados.
No mesmo audiovisual, Heráclito fala sobre os materiais utilizados por Didi em sua obra, como as folhas de dendezeiro, couro e os búzios. “São elementos de informação para a criação, mas além de um significado simbólico, esses materiais carregam um significado energético”, observa.
O ambiente expográfico organiza o percurso em ilhas assentadas sobre bases de terra, elemento associado ao universo simbólico religioso de Didi. Assim, aproxima instrumentos rituais das estratégias formais da escultura, propondo pontos de observação que cruzam dimensões materiais, históricas e linguísticas.
Espaço expositivo
Entrando na exposição pelo primeiro andar, o visitante é recebido por uma obra monumental da artista baiana Nádia Taquary, criada especialmente para esta mostra. Vale lembrar que uma das obras desta artista, Ìrókò: A árvore cósmica, foi exibida na mais recente Bienal de São Paulo.
É neste piso que se encontra o eixo das Formas Sagradas. Aqui, as obras de Mestre Didi, derivadas dos objetos litúrgicos, dialogam com outras de artistas consagrados como Abdias Nascimento e Rubem Valentim. O visitante encontra obras baseadas nos formatos do Xaxará, ligado ao orixá Obaluaê, e do Ibiri, que remete à orixá Nanã Buruquê. As esculturas combinam simbologias, articulando temas como cura, fertilidade, morte e ancestralidade, em peças reinventadas pelo Mestre.
Outros dois eixos compõem este piso: Cetros e Modernismos afro-brasileiros. O primeiro reúne cetros criados por Mestre Didi a partir das nervuras das folhas de dendezeiro, alguns em grande escala. As peças dialogam com o uso ritual, mas se expandem em formas escultóricas complexas, evocam árvores, ancestrais e símbolos afro-brasileiros.
Por fim, o visitante encontra obras de artistas afro-brasileiros cujas trajetórias dialogam com a de Didi, especialmente na Salvador das décadas de 1960 e 1970. Este eixo revela como eles usaram estéticas da diáspora africana para criar linguagens modernas, desafiando a centralidade europeia no Modernismo e explorando identidade, negritude e inovação formal.
Piso -1
Aqui, os eixos são Orixás, Novas Direções, Bichos, Rituais e mais Modernismos afro-brasileiros. Orixás apresenta esculturas que incorporam e reinventam símbolos dos orixás, com novas configurações visuais baseadas em suas mitologias. Novas Direções apresenta a experimentação material de Didi com dendezeiro, ráfia, couro, búzios, cabaças, barro e peles, transformados em figuras, objetos e joias.
Bichos reúne esculturas que incorporam pássaros, serpentes e outras formas zoomórficas, associadas aos diferentes panteões dos orixás. Rituais traz fotografias de Arlete Soares, que documentam o candomblé a partir de sua vivência e pesquisa. Trata-se de imagens de rituais, sacerdotisas, egunguns e celebrações, além de registros que conectam o candomblé à diáspora iorubá, incluindo fotos feitas no Benin durante intercâmbios culturais.
Piso -2
O segundo subsolo reúne cinco artistas do Ilê Asipá, terreiro fundado por Didi em Salvador, em Legado e olórin tí a bí ní ilé Àsipà. Todos apresentam obras comissionadas para a exposição. Antonio Oloxedê, neto de Mestre Didi, seguiu seu legado produzindo esculturas; Kleyson Otun Elebogi, apresenta a obra Awô Software, impressão de fotografia a laser em placa de metal mista; Jurandy Sobrinho e André Otun Laran expõem trabalho de arte têxtil e Edivaldo Bolagi, assina uma instalação sonora que remete à vivência do terreiro, como o som de máquinas de escrever e de instrumentos rituais.
Neste andar também se encontra o acervo biográfico e documental, com pesquisa do assistente curatorial Tiago Sant’Ana. Além das obras físicas, a exposição conta com um documentário produzido em Salvador no final de 2025 pela equipe do Itaú Cultural. O filme reúne entrevistas com familiares, como Inaicyra Falcão, educadora e filha de Didi, curadores e membros do Ilê Asipá. Há também glossário de termos em Iorubá e textos de parede que contextualizam a polifonia de Mestre Didi como artista, pesquisador e líder espiritual.
Artistas
Núcleo Modernismos afro-brasileiro, no primeiro andar da exposição:
Abdias do Nascimento (homenageado pela 33ª edição do programa Ocupação, realizada em 2016 no IC)
Agnaldo dos Santos
Arlete Soares
Aurelino dos Santos (teve obras expostas na mostra Bispo do Rosário: eu vim – aparição, impregnação e impacto, no IC, em 2022)
Ayrson Heráclito (sua obra, Bori Cabeça de Ogum (2009), está exposta em Brasil das Múltiplas Faces no Espaço Milú Villela no 7º andar do IC)
Emanoel Araújo
Goya Lopes (participa da exposição com obra comissionada; também fez parte de Artistas do vestir: uma costura dos afetos realizada em 2024/2025 no IC)
Jorge dos Anjos
José Adário
Nádia Taquary (participa da exposição com obra comissionada; também fez parte de Artistas do vestir: uma costura dos afetos realizada em 2024/2025 no IC)
Rubem Valentim (sua obra, Emblema (1968), está exposta em Brasil das Múltiplas Faces no Espaço Milú Villela no 7º andar do IC)
Todos estes artistas têm verbetes na Enciclopédia Itaú Cultural.
Núcleo Legado, do terreiro Ilê Asipá, com obras comissionadas e produzidas para a exposição:
Antonio Oloxedê (Escultura)
Kleyson Otun Elebogi (Fotografia)
Maxodi Jurandi (Tecidos)
André Otun Laran (Quadro com tecidos)
Edivaldo Bolagi (Vídeo-instalação)
SERVIÇO
Exposição Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira
Abertura: 7 de abril de 2026, às 19h
Visitação: até 5 de julho de 2026
Às terças-feiras a sábados, das 11h às 20h
Aos domingos e feriados, das 11h às 19h
Pisos 1, 1SS e 2SS
Concepção e realização: Itaú Cultural
Curadoria: Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura
Assistência curatorial: Tiago Sant’Ana
Projeto expográfico: Francine Moura
Projeto de acessibilidade: Itaú Cultural
ITAÚ CULTURAL
Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô | Entrada gratuita
Espaços acessíveis:
o prédio do Itaú Cultural apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
Estacionamento:
Entrada pela Rua Leôncio de Carvalho, 108
Com manobrista e seguro, gratuito para bicicletas
Mais informações:
Telefone: (11) 2168-1777
WhatsApp: (11) 96383-1663
Texto por agência com edição de Rebeca Dias
Fotos por Divulgação
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