2 - Cultura

Instalação Terra em Trama no Museu das Culturas Indígenas 

Instalação colaborativa reúne cartografias de comunidades indígenas do Paraná em estrutura de madeira e sapé.

Integra a 14ᵃ Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo e teve parte de sua estrutura construída com foco na partilha de saberes em uma oficina realizada no MCI.

Em outubro, o Museu das Culturas Indígenas (MCI) apresenta a instalação Terra em Trama. A obra reúne nove grandes cartografias sociais elaboradas por comunidades indígenas do Paraná e exibidas em uma estrutura circular de madeira e sapé, construída de forma colaborativa por mestres indígenas, estudantes e pesquisadores. O MCI é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerida pela ACAM Portinari – Organização Social de Cultura, em parceria com o Instituto Maracá e o Conselho Aty Mirim.   

Criada pelo Estúdio Fronteira, um projeto de extensão universitária do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, a instalação propõe um espaço de transmissão de conhecimentos, em que práticas construtivas indígenas dialogam com a arquitetura contemporânea. A instalação é um espaço de encontro e aprendizado, um chamado para o público refletir sobre o habitar indígena contemporâneo, a luta por territórios e alternativas para enfrentar a crise climática.

A estrutura em sapé foi construída durante uma oficina aberta realizada no MCI, sob a condução da arquiteta e professora Marina Oba, do construtor Guarani Mbya, Elias Fernandes Cordeiro (Verá Popygua) e com a participação do Programa de Educação Tutorial Indígena da Universidade Federal do Paraná (PET Indígena-UFPR).

Foto: Leandro Karaí Mirim/Acervo MCI

O território como trama de vida

Ao ocupar o espaço expositivo, Terra em Trama apresenta o habitar indígena contemporâneo e revela como as populações indígenas ressignificam programas habitacionais oficiais, ao adaptá-los com soluções próprias que combinam invenção, tradição e resistência. A partir dessa perspectiva, a instalação confronta a historiografia arquitetônica que historicamente associou a arquitetura indígena ao “primitivo” e à baixa qualidade.

A instalação articula nove cartografias sociais anotadas, elaboradas de forma crítica, coletiva e colaborativa, que narram os enredos de comunidades indígenas do Paraná, entre retomadas e aldeias urbanas. Cada uma dessas telas funciona como um autorretrato cartográfico e registra as relações entre comunidades e territórios. As cartografias trazem também intervenções feitas pelas próprias comunidades, com grafismos tradicionais, desenhos de animais, elementos da natureza e aspectos do cotidiano dos territórios, camadas visuais que tornam o material vivo e em constante transformação.

Para Marina Oba, esse processo amplia a própria ideia de arquitetura, “os documentos técnicos que produzimos normalmente são frios, mas quando abrimos para que as comunidades intervenham com desenhos, símbolos e palavras, eles se tornam mais próximos de quem vive nesses territórios. É um retrato construído a muitas mãos.”

As telas expõem a diversidade de experiências, como a Retomada Kaingang de Kógunh Jãmã (Campo Largo), a Retomada Kaingang do Cristo de Purunã (São Luís do Purunã),      a Retomada Multiétnica Tekoa Ywy Dju (Piraquara), além de territórios como Tekoa Pindoty e Tekoa Takuaty (Paranaguá), Tekoa Tupã Nhe’e Kretã (Morretes), Tekoa Kuaray Guata Porã (Guaraqueçaba) e a Terra Indígena Rio d’Areia (Inácio Martins).

“Muitas vezes, nas retomadas, vemos casas de lona ou construções precárias. Mas também encontramos exemplares de arquitetura tradicional e inovadora, que não simbolizam falta, e sim expressam cultura, vontade e organização interna das comunidades,” ressalta Marina.

Estrutura e experiência 

Composta por um dodecágono em madeira desmontável (6,24m de diâmetro e 3m de altura), a instalação recebe fechamento lateral em trama vegetal de sapé e a estrutura torna-se espaço de aprendizagem, debate e interação. Para Marina Oba, a proposta é também pedagógica, “queríamos que a instalação fosse uma sala de aula viva. Enquanto as telas mostram os territórios em disputa, a estrutura de sapé materializa um aprendizado coletivo, no qual estudantes e visitantes aprendem com mestres indígenas e ressignifica o papel da arquitetura no presente e no futuro”.

SERVIÇO

Instalação “TERRA EM TRAMA”

Data e horário: 01/10 a 02/11/2025, das 09h às 18h (quintas, até às 20h)

Todas as atividades são gratuitas com retirada de ingresso no site: https://museudasculturasindigenas.org.br/

Texto por agência e edição de Rebeca Dias

Claudio Lacerda Oliva

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